Guerra dos sexos em ácaros aranha


É sabido que machos e fêmeas entram em conflito por várias razões. No entanto, uma das possíveis fontes de conflito tinha sido, até hoje, ignorada: o sexo da descendência.

Para entendermos o conflito, temos de recuar a um artigo clássico da Biologia Evolutiva, publicado pelo grande Hamilton, onde ele prevê, através dum modelo matemático, que o rácio sexual óptimo para a descendência dum organismo depende da vizinhança: se uma fêmea puser ovos perto de outras, convém-lhe produzir bastantes filhos, para que estes possam fecundar as filhas dos outros, ganhando a competição com filhos de outras mães.

Ácaros-aranha. Foto de Jacques Denoyelle.

Ácaros-aranha. Foto de Jacques Denoyelle.

No entanto, se uma mãe se encontra sozinha, não lhe convém ter muitos filhos, porque estes apenas vão entrar em competição com os seus irmãos. Assim, o rácio sexual óptimo para uma mãe é ter muitas filhas se ela estiver sozinha ou metade filhos / metade filhas se estiver com outras fêmeas.

Para um pai, as previsões são exatamente as mesmas excepto em organismos haplodiplóides. Neste sistema, as fêmeas são diploides e os machos haploides, resultando de ovos não fecundados, que portanto contêm apenas o genoma materno. Assim sendo, os pais só transmitem os seus genes às suas filhas.

Portanto, para um pai nunca lhe convêm ter filhos! Se compararmos então o rácio sexual óptimo para uma mãe e um pai, ele é o mesmo se a mãe puser ovos sozinha, mas é radicalmente diferente se a mãe puser ovos com outras.

Para ‘desmascarar’ este conflito, o estudo de Emilie Macke, Isabelle Olivieri e Sara Magalhães utilizou populações de ácaros-aranha que evoluíram em condições diferentes durante cerca de 50 gerações: ou as mães punham ovos sozinhas ou em companhia, a cada geração. Depois, cruzaram os machos e fêmeas dessas populações com indivíduos de linhas isogénicas, de forma a medir adaptações em machos e fêmeas separadamente.

Verificaram que, em populações que evoluíram sem conflito (i.e., uma fêmas a pôr ovos sozinha), mães e pais produziam o mesmo rácio sexual. No entanto, indivíduos que evoluíram em conflito (i.e., várias fêmeas a porem ovos juntas) tinham descendência com rácios sexuais diferentes quando cruzados com linhas isogénicas.

Assim, as mães produziam mais filhos, enquanto que os pais manipulavam o rácio para produzir mais filhas. Em conclusão, o estudo mostra que (a) há de facto (mais um) conflito entre machos e fêmeas, sobre o sexo dos filhos, e (b) tanto pais como mães conseguem controlar o rácio sexual da sua descendência.

Este trabalho foi desenvolvido por: 

Emilie Macke1,2, Isabelle Olivieri1 and Sara Magalhães3

1 Institut des Sciences de l’Evolution de Montpellier, Université Montpellier 2, Place Eugène Bataillon, 34095 Montpellier cedex 05, France

2 Aquatic Biology, IRF Life Sciences, Science & Technology, KU-Leuven, Campus Kortrijk, E. Sabbelaan 53, B-8500, Kortrijk, West-Vlaanderen, Belgium (present address)

3 Centro de Biologia Ambiental, Faculdade de Ciencias da Universidade de Lisboa, Edificio C2, 3º Piso Campo Grande, 1749016 Lisbon, Portugal

Este trabalho foi financiado por:

Contrato FCT-ANR FCT-ANR EVOSEXALLOC (PIs Sara Magalhães e Isabelle Olivieri)

Para mais informações:

Macke E, Olivieri I, Magalhães S (2014) Local Mate Competition Mediates Sexual Conflict over Sex Ratio in a Haplodiploid Spider Mite. Current Biology 24: 2850–2854. doi:10.1016/j.cub.2014.10.040.

 Email: snmagalhaes@fc.ul.pt

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